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A máfia italiana se instala em Maceió, cadê a ação das instituições públicas?

Por Imprensa (quinta-feira, 7/10/2010)
Atualizado em 7 de outubro de 2010

Veja a reportagem completa da revista Carta Capital sobre a máfia italiana

Para o Sindpol, a Delegacia Geral concentra todo o seu esforço para expulsar policiais civis por motivos que poderiam ter sido evitados pela própria instituição policial, já que a maioria dos problemas é reflexo da falta de política de saúde para a categoria, que é vítima das doenças ocupacionais (depressão, alcoolismo, diabete, ansiedade, hipertensão etc).


“Enquanto o papel da polícia judiciária é deixado de lado, se por falta de conhecimento, comodismo ou pura incompetência, o fato é que a máfia italiana se instalou em Maceió. E agora Ministério Público, a Secretaria de Defesa Social, o Conselho de Segurança Pública e a Polícia Civil?!”, indaga o diretor Financeiro do Sindpol, Antonio Zacarias.


 


Veja a reportagem completa da revista Carta Capital, edição 589, março de 2010.


 


Planta má em terra nossa »


Ndrangheta | A máfia mais poderosa da Itália atua, com força crescente, favorecida pela indiferença do Brasil


 


Por: Paolo Manzo


Quarenta e quatro bilhões de euros, em reais cerca de 110 bilhões. É o faturamento em 2008 da `Ndrangheta, multinacional de origem calabresa. Multinacional do crime, hoje a organização mafiosa mais forte e globalizada do mundo. Para ficar no rol das italianas, maior do que Cosa Nostra e Camorra.

Um tentáculo da `Ndrangheta alcançou o Brasil há mais de 30 anos, mas o Brasil parece não se incomodar com esta aterradora presença. E com outras não menos constrangedoras. Convoquemos, por exemplo, o fantasma de PC Farias, a sinistra personagem que cuidava dos negócios de Fernando Collor.

Um livro publicado há dez anos em Londres, de autoria de Antonio Nicaso, especialista reconhecido mundialmente, e Lee Lamotte, Global Mafia: The New World Order of Organized Crime, revelava as relações profundas, e absolutamente documentadas, entre Farias e Alfonso ­Caruana, boss de uma das famílias mafiosas mais importantes da Sicília. Registrava inclusive o singular comparecimento de 8 milhões de dólares na conta da eminência parda do governo collorido. Depositados por Caruana: reciclagem comprovada.



Tal o passado. O presente é ainda mais assustador. Segundo informe da inteligência internacional, todas as fronteiras do Brasil são usadas pela `Ndrangheta para o tráfico de drogas, com especial destaque para a fronteira com a Bolívia, onde se utiliza sobretudo a via fluvial. Não por acaso, na semana passada, a PF brasileira assinou um Acordo de Cooperação Internacional com a polícia boliviana, na tentativa de limitar o volume do tráfico de cocaína.

Leve-se em conta que há químicos brasileiros que figuram entre os melhores do mundo e funcionam como complemento indispensável para esta gigantesca operação global. Todas as máfias italianas estão presentes no Brasil, até a Sacra Corona Unita, das Apúlias. No entanto, é a `Ndrangheta aquela que no País montou uma das suas mais imponentes lavanderias. Conforme os depoimentos de pelo menos dois colaboradores de Justiça, insólitas figuras dentro da organização, na qual a delação não é permitida e punida com a morte.

Antonio Nicaso, residente em Toronto, no Canadá, e Nicola Gratteri, procurador antimáfia junto ao tribunal de Reggio Calabria, acabam de lançar na Itália um livro, La Mala Pianta, pela Editora Mondadori, altamente revelador dos gigantescos poderes da `Ndrangheta e, portanto, também de suas ramificações no Brasil.



Nicaso é escritor, jornalista e pesquisador. Calabrês como Gratteri, o maior expert mundial em criminalidade italiana. O magistrado atua há 30 anos em Reggio Calabria e sempre resistiu no lugar a despeito das ameaças a que é constantemente exposto. Obviamente, vive sob escolta policial dia e noite. As entrevistas a seguir revestem-se de enorme importância porque se aprofundam no estudo da mala pianta, a planta má, enraizada em terra brasileira.


 


 



‘Fonte de lucro enorme’ »


 


Fala Nicaso, maior especialista do mundo em máfias

CartaCapital: Por que se fala tanto de Cosa Nostra, quando a maior emergência criminal no mundo é a `Ndrangheta?
Antonio Nicaso:
Em primeiro lugar, temos de levar em conta que a `Ndrangheta move-se sempre de forma sorrateira e por isso não dá na vista. Diferentemente da máfia siciliana, nunca pensou em declarar guerra ao Estado nem foi uma organização anti-Estado, pelo contrário, infiltrou-se nos gânglios vitais do Estado.

CC: La Mala Pianta inicia assim: a máfia mais rica do mundo domina a região mais pobre da Europa. A `Ndrangheta, que até 20 anos atrás era considerada uma criminalidade de Terceiro Mundo, arcaica e grosseira, hoje fatura 44 bilhões de euros por ano e controla quase toda a cocaína da Europa. Até em Medellín, os Escobar e os Ochoa quiseram um aeroporto moderníssimo, um metrô sobrelevado e hospitais de primeira linha. Mas na terra das `ndrine, os uomini di panza (homens de barriga) limitam-se a distribuir ao povo calabrês as miçangas e os espelhinhos dos consumos efêmeros. Por que a `Ndrangheta nunca investiu seus ganhos na sua terra, diferentemente da Cosa Nostra?
AN:
É um dado real que a `Ndrangheta desde sempre saqueou a Calábria. Ali viveu de extorsões, raptos e negócios escusos nas áreas de construção e saúde. O dinheiro do narcotráfico ela nunca usou na sua região, principalmente pelo receio de perdê-lo .

CC: Quando se dá a virada da `Ndrangheta em relação à máfia siciliana?
AN:
A fortuna da `Ndrangheta nasce da intuição dos clãs da Locride, que, contrariamente àqueles do Tirreno, representam um verdadeiro e próprio “nomadismo criminal”, já que se infiltraram desde logo nos gânglios da imigração calabresa espalhada pelo mundo. Graças a essas infiltrações, se estabeleceram antes de outras organizações mafiosas nos pontos estratégicos, inicialmente na Colômbia, em seguida na Argentina e no Brasil. Hoje estão em todo o mundo. Isso garantiu à `Ndrangheta uma notável força, também porque, além dessa sua capilaridade global, possui outra característica. Sempre foi mais confiável do que a Cosa Nostra porque a sua estrutura não admite deserção. Essa impermeabilidade é o seu trunfo.

CC: O que representa o Brasil hoje para a `Ndrangheta?
AN:
Uma fonte de lucro enorme. O Brasil é a orla silenciosa da `Ndrangheta. Também porque não há uma forte ação de contraste às máfias no País, onde se dá muito mais atenção à criminalidade comum. Hoje, os políticos verde-amarelos não se preocupam com as máfias, primeiro porque elas trazem dinheiro ao País e, em segundo lugar, porque esse contraste não traria votos, assim como os traz a concentração sobre o tema “segurança” e sobre a microcriminalidade.

CC: Na La Mala Pianta, o senhor e Nicola Gratteri contam a história de Salvatore Mancuso, o chefe do mais poderoso grupo paramilitar colombiano, as AUC, um dos vários partners comerciais da `Ndrangheta pelo mundo, o qual admitiu que, com o tráfico de drogas, cada ano entram na economia colombiana cerca de 7 bilhões de dólares. Mancuso pode representar o paradigma do modus operandi da `Ndrangheta?



AN: Mancuso era o líder dos “para” de direita colombianos e inicialmente cria uma estrutura para a proteção dos fazendeiros contra as Farc, que nos anos 70 passaram a sequestrar os filhos da burguesia fundiária . Em seguida, com o transcorrer do tempo, acaba por entrar na mecânica dos narcos. Se antes limitava-se a exigir um pagamento aos camponeses que viviam da produção da terra, em seguida passa a gerir o tráfico. As AUC de Mancuso entram no giro dos narcotraficantes e começam a gerir diretamente as relações com as organizações criminais, principalmente aquelas poderosas e solventes como a `Ndrangheta. Mancuso inicia como importador de vinho, mas em seguida o seu giro de negócios fermenta em todos os sentidos, e envolve toneladas de droga. Daí a necessidade de reciclar os lucros. Em 2003, entra num inquérito de Gratteri e da Procuradoria de Reggio Calabria. Estávamos indagando a respeito de um certo Giorgio Sale, empreendedor italiano que na Colômbia importava vinho e era proprietário de alguns restaurantes. Com Mancuso começa a falar de Brunello de Mantalcino e em seguida de investimentos na Itália. Enfim, aparece o interesse de Mancuso em transferir-se na Itália para escapar da prisão, também porque ele ordena aos brokers da `Ndrangheta investir na Toscana, principalmente em estruturas turísticas, e no Lazio. Neste caso, nos encontramos diante de uma figura que consegue corromper os elementos graúdos da política colombiana, mas que, ao mesmo tempo, pensa na Itália como possível buen retiro. No fim, Mancuso é preso e interrogado por Gratteri em Washington. Pés e mãos amarrados, “coisa esta impossível na Itália”, como conta o magistrado calabrês em La Mala Pianta.

CC: Há Mancusos no Brasil? Ou, melhor dizendo, qual é o posicionamento da `Ndrangheta hoje no Brasil?
AN:
No Brasil, existem poderosas bases e células da `Ndrangheta. Há as famílias de San Luca, os Piromalli, os Maesano, os Paviglianiti, mas principalmente os Comesso de Siderno, os Morabito de Africo. Praticamente, toda a elite da `Ndrangheta encontra-se radicada no Brasil.

CC: Segundo o seu parecer, por que isso?
AN:
Porque o Brasil assume cada vez mais o papel de um país de trânsito. Há muita pressão na Colômbia, Peru e Bolívia e, justamente por isso, há uma tendência por parte da criminalidade organizada internacional em transferir o tráfico da droga. Por isso o Brasil é sempre mais um país de trânsito, e também de consumo. Há alguns anos a rota dos narcos está sempre mudando e a cocaína tende a partir do Brasil, onde estão se criando grandes sinergias com a África, principalmente com a Guiné-Bissau. Parte da África é controlada pelas famílias da `Ndrangheta que corromperam as ditaduras militares daqueles países e conseguem estocar sua mercadoria. Na Guiné-Bissau, em primeiro lugar, para em seguida distribuir a cocaína na Europa pelo sistema do drug on demand. Trata-se de volumes, normalmente na quantidade de 200 quilos cada um, que muitas vezes transitam pelo Saara e depois se dirigem em direção a Portugal, Espanha Meridional, França ou Europa do Norte, quase sempre por via marítima.

CC: Além do trânsito da cocaína, a `Ndrangheta vê no Brasil também a possibilidade de reciclagem.
AN:
Aproveitam-se do sistema financeiro brasileiro, entre os mais automatizados do mundo. Nos investimentos da `Ndrangheta planeta afora, o Brasil é cada vez mais “central”.

CC: Em quais cidades brasileiras a `Ndrangheta está mais bem posicionada?
AN:
Em Maceió, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Fortaleza… A `Ndrangheta está posicionada no Brasil com a sua elite nos principais centros urbanos. Homens ligados a Giuseppe Morabito u tiradrittu (apelido que tem o significado de boa pontaria, que atira com perfeição), um dos bosses mais poderosos, expoente de seu grupo, a cosca (gangue-família no sentido mafioso), Morabito-Mollica, vivem em Fortaleza. Em Brasilia há os Commesso de Siderno, os Piromalli de Gioia Tauro, os Maesano. Quando Santo Maesano, em 2002, foi preso em Palma de Maiorca, descobriu-se que tinha como broker o suíço Claudio Boscaro. Este, a cada 15/20 dias, enviava remessas milionárias para o Brasil e a Venezuela. Hoje temos o testemunho desse consulente financeiro helvético que reciclava o dinheiro da `Ndrangheta, porque ele agora é um colaborador de Justiça e, juntamente com outros, tem falado justamente da posição central do Brasil nesse setor específico, o da reciclagem. Mas Giacomo Lauro, expoente da `Ndrangheta que nos anos 90 tornou-se colaborador de Justiça, há mais de dez anos já tinha falado do Brasil como ponto estratégico no Risiko internacional do narcotráfico.


 


 


 


Brasil, ‘país permeável’ »


Fala Gratteri, o juiz que vive sob escolta


 


CartaCapital: Para os políticos brasileiros, o narcotráfico é somente um problema relacionado com a violência nas favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em outras palavras, microcriminalidade. Nenhum trabalho jornalístico apareceu para denunciar a centralidade do Brasil como país de reciclagem, sobretudo pela `Ndrangheta.



Nicola Gratteri: Para os políticos, assassinatos valem mais que dinheiro reciclado. A criminalidade organizada continua a ser percebida apenas em razão da violência. É o que acontece no Brasil, onde a miséria comporta risco à ordem pública, ou em muitos outros países, onde se presta mais atenção à microcriminalidade. Infelizmente, quando as máfias se movimentam através de indícios não incomodam. Seria necessário começar a enfrentar seriamente o problema dos investimentos mafiosos, ou seja, o profit-sharing entre empreendedores e criminosos e entre políticos e mafiosos. Os mafiosos se dirigem onde procura e oferta se encontram. E neste momento o Brasil representa um país permeável aos investimentos mafiosos. Já nos anos 80, no Brasil se instalaram os brokers das `ndrine como representantes das famílias mais importantes da província de Reggio Calabria. No Brasil, de qualquer forma, há também expoentes de Cosa Nostra, Sacra Corona Unita e Camorra.

CC: Na Mala Pianta fala-se de Salvatore Mancuso (leader do grupo paramilitar AUC) sobre o fato de que “com a droga chegou o dinheiro, uma montanha de dinheiro que fez da `Ndrangheta a única máfia verdadeiramente globalizada, com tentáculos em todos os continentes”. Há personagens iguais àquele de Mancuso no Brasil?


NG: Até o presente momento, não apareceram, mas isso não significa que não existam. No Brasil há, com toda certeza, pessoas sem escrúpulos, empreendedores que não desdenham os capitais mafiosos, principalmente no setor da construção civil. A Polícia Federal brasileira está convencida de que o tráfico de droga no Brasil não seja ainda gerido por grandes organizações criminosas, ou por meio de extensas redes de distribuição, mas apenas conduzido por pequenos grupos, cuja estrutura menor permite maior flexibilidade e articulação. Daí, conseguiriam iludir mais facilmente os controles da polícia e aqueles financeiros.

CC: Na Colômbia primeiramente, em seguida no México, a presença de grandes cartéis levou à verdadeira e própria guerra entre clãs. De um lado, enfraqueceram os “combatentes”; do outro, despertaram a atenção para os dois países, tirando a tranquilidade dos traficantes. No Brasil, isso não está acontecendo, estamos na presença de pequenos grupos que traficam drogas. Quais consequências poderia acarretar no futuro do País a falta de percepção do problema por parte dos políticos brasileiros?
NG:
A pressão exercida sobre a Colômbia e o México obrigou os narcotraficantes a utilizar portos mais tranquilos para o despacho da droga. Subestimar o problema deságua, inevitavelmente, no aparecimento de relações da `Ndrangheta com os microcartéis brasileiros que até agora mantiveram um perfil muito baixo.

CC: Brasil e África estão se tornando sempre mais importantes em relação ao trânsito em direção à Europa. Está se fazendo algo para cortar esta ponte gerida pela `Ndrangheta?


NG: Os inquéritos nos levam considerar que, na África, a Guiné-Bissau está se tornando sempre mais uma sede privilegiada para os estoque da `Ndrangheta. Ultimamente aumentaram as relações entre Guiné-Bissau e Brasil. É meu desejo que possa aumentar também a ação policial através de uma mais eficaz colaboração internacional. Hoje faltam essas sinergias e a luta aos narcotraficantes é fortemente prejudicada. Além do mais, no Brasil, há uma bem radicada comunidade nigeriana. Algumas atividades investigativas conduzidas na Itália, principalmente pelos promotores de Nápoles, conseguiram também documentar como muitas vezes o Brasil é o centro de recrutamento dos portadores de droga destinada para a Europa e Itália, como também o lugar para a estocagem das cargas.

CC: É importante, como afirmam os entendidos no assunto, que haja a disponibilidade de bons químicos no tráfico da cocaína. Que papel o Brasil tem em relação aos outros países da área?
NG:
Os relatórios dos serviços de inteligência confirmam o incremento de laboratórios, principalmente nas zonas de divisa entre Brasil e Peru. Parece que o Brasil está se equipando adequadamente para completar o ciclo produtivo da cocaína.

CC: Qual a importância do Brasil para a `Ndrangheta? Há notícias da infiltração da `Ndrangheta na economia legal? É imaginável uma economia “legal” forte, altamente infiltrada por capitais da droga da `Ndrangheta, sem que antes ou depois haja um choque com o Estado, que acolhe tais investimentos?


NG: A `Ndrangheta está presente no Brasil há pelo menos 30 anos. Se até agora não foi notada ou ouvida, com certeza terá encontrado a forma de mimetizar-se para investir os rendimentos da droga. Se foram usados sistemas como em outros países, quase com certeza hoje está gerindo uma série de atividades econômicas e empresariais em nome de “laranjas” ou de pessoas sem escrúpulos.

CC: Quem é o italiano mais “interessante” detido no Brasil no último ano por tráficos relacionados com droga?
NG:
A figura de maior relevo é Sergio Cavuoti, cuja prisão entra no contexto de uma das mais vastas investigações conduzidas pela DDA de Nápoles sobre uma hipótese de tráfico de drogas gerido por um sodalício de nigerianos e italianos que operam na área de Castel Volturno e com forte link no Brasil. No Brasil, além do mais, há muitos anos mora um dos filhos de Badalamenti, envolvido em tráfico de drogas e reciclagem.


 


Mas Fortaleza é o ponto inicial da invasão dos calabreses


* A primeira operação antidrogas internacional de grande porte, e que envolveu o Brasil, foi batizada pela polícia italiana como “Cartagena”, ou “Fortaleza”. Desenvolvida no Brasil logo após o Mundial de Futebol realizado na Itália em 1990, resultou no sequestro de 11 toneladas de cocaína em vários países sul-americanos, incluindo o nosso Nordeste, procedentes do Cartel de Cali.

* A primeira carga sequestrada aconteceu no Brasil, a 14 de julho de 1992. Tratava-se de 592 quilos de cocaína puríssima. Entre os presos na ocasião, Francesco Sculli, neto do chefão Rocco Morabito. Investigações aprofundadas também foram conduzidas em relação a outro cidadão italiano, Domenico Mollica.

* O Brasil foi escolhido para transferir os embarques dos contêineres de Cartagena para Fortaleza. Investimentos no Nordeste foram realizados pela `Ndrangheta em parceria com empresários locais, sobretudo para construção de acomodações turísticas. Nesse período, a cidade holandesa de Roterdã tornou-se central no eixo `Ndrangheta-Brasil.

* Em 2003, 225 quilos de cocaína foram interceptados a bordo do cargueiro California Luna, a serviço de uma empresa de Manaus, destinados às `ndrine de Hamburgo.

* Colaboradores de Justiça falam de São Paulo como sede da bolsa da droga. Certo é que em São Paulo cresce a concentração de cocaína e maconha. Em comparação com 2008, 75% a mais de coca e 160% de maconha no ano passado.

* Procedentes do Brasil, em 2007 foram sequestradas 13 toneladas de cocaína cloridrato, uma tonelada de cocaína-base e 150 toneladas de maconha.

* À espera do Mundial de Futebol de 2014, a polícia italiana grampeou camorristas e mafiosos sicilianos entusiasmados com a “perspectiva de grandes negócios”.


 


 


Em primeiro lugar, o tráfico »


Representa 60% do faturamento total da multinacional do crime


 


Stendhal, tomado em 1799 por impulsos proféticos, vaticinou o nascimento na Calábria de uma perigosa sociedade secreta. Estudioso das coisas da Itália, onde viveu por muito tempo, o autor de O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma, percebeu o desfecho inevitável de situações vincadas pela miséria e pela violência. De fato, a origem da `Ndrangheta remonta aos começos de 1800.

O nome vem de uma palavra do grego antigo, andraghetos, que significa homem corajoso, coerente com reminiscência dos tempos em que a Baixa Itália foi Magna Grécia, terra de Pitágoras e Arquimedes. Segundo a polícia italiana, atualmente militam na `Ndrangheta 155 clãs locais, `ndrine, com cerca de 6 mil filiados.

Na Península, pela qual se espalhou até as cidades principais do norte, controla setores da indústria, finanças, comércio, agricultura, amiúde com a conivência de administrações locais e regionais. De todo modo, o tráfico de drogas é o item principal de faturamento de 44 bilhões de euros em 2008 (acima de 27 bilhões, do total de 44). Segundo o professor Donato Masciadaro, da Universidade Bocconi de Milão, o faturamento seria ainda superior, chegaria a 55 bilhões de euros, pois teriam de ser acrescentados os ganhos
com a reclicagem de dinheiro.

Maior organização mafiosa do mundo, a `Ndrangheta atirou seus tentáculos mundo afora a partir do tempo da emigração calabresa, que em vários casos estabeleceu espécies de cabeças de ponte, como a Mano Nera nos Estados Unidos, no começo do século passado. Como multinacional do crime, opera em 49 países. No Brasil, há tempo atuam em Fortaleza as `ndrine dos Mazzaferro e dos Morabito. Estes estão igualmente na Argentina e na Colômbia. Aqueles também, e ainda em Curaçao. Mas a invasão do Brasil já alcança muitas outras cidades além da capital do Ceará, a começar pelo Rio e por São Paulo.

As `ndrine estão ligadas por decisivos vínculos familiares e é bastante comum o casamento entre representantes de `ndrine diferentes. A filiação se dá por nascimento, quando se trata do filho de `ndranghetista, ou pelo batismo, que implica o juramento “em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”. O padrinho garante a lealdade do batizado com a própria vida, e por qualquer deslize deste pode pagar também a família. Esta é a primeira razão pela qual colaboradores de Justiça saídos da `Ndrangheta são muito raros.

Uomo di panza, homem de barriga, e capobastone, chefe do bastão, são alguns dos nomes que designam figuras do comando, e todos são uomini d’onore, homens honrados.

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